agosto 10, 2005

Noite escaldante de Verão

Ela sempre quisera ser ar para poder pairar sobre o mundo, apenas como alma, mas nascera fogo, totalmente dada a paixões. Contudo, não era uma pessoa quente, pois facilmente se enchia de frio. Adorava tardes escaldantes de Verão. Suportava facilmente altas temperaturas e só caía na cama quando o termómetro marcava 40ºC em diante. Podia dizer-se que era como um vulcão. Em geral, estava calma e serena, mas havia um dia em que entrava em ebulição e aí não havia nem ar nem água que lhe valessem.

Até então, nenhum homem a havia feito entrar em erupção, menos um, naquela noite escaldante de Verão. Esse tinha um enorme poder erótico sobre ela. Quando ela pensava que ele não lhe causaria qualquer efeito, perdia-se com aquela voz que a fazia fantasiar como nunca. Ouvi-lo falar de tudo e de nada, ouvi-lo ler textos seus e poesias era o melhor afrodisíaco para a sugestionar e a querer tornar-se apenas corpo. Aquele homem fazia despertar o seu lado Lara Croft e estava disposta a fazer loucuras só para poder desatear a chama do desejo.

Encontraram-se já tarde, porque ambos eram tecidos de noite. Tentaram falar mas o ar estava simplesmente tórrido, irrespirável. Os pensamentos queimavam-se antes de se transformarem em palavras. Agarram-se repentinamente. Despiram-se depressa entre beijos sôfregos e sorrisos nervosos. O desejo tornara-se tão imperioso que quase era doloroso. Entrou nela como um furacão, pronto a arrebatar a lava dum vulcão. Amaram-se fogosamente, fazendo chiar a cama quase até à exaustão. Agarrados um ao outro, arrebataram-se mutuamente de uma forma brutal e inesperada. E assim permaneceram durante a noite.

De manhã, já ele partira, levantou-se da cama para que a água do chuveiro resgatasse as cinzas de si mesma. Sabia que não voltaria a vê-lo...

Publicado por jacky às 10:48 AM | Comentários (7) | TrackBack

agosto 06, 2005

silêncio II

O silêncio instalou-se entre nós, os dois, cada um sentado na ponta do sofá. É um silêncio feito tijolo, constructor de paredes. Cada dia que passa vai crescendo um pouco mais e já quase nem consigo ver-te do outro lado, quando espreito por cima do muro.
As palavras cansam-se de pular por cima do muro ou de trepar sem apoios. Não nasceram vocacionadas para a escalada. Talvez devêssemos construir um escorrega de frases que pudessem circular de lado a lado.
Enviei-te alguns aviões de papel, recheados de palavras. Não os deves ter lido, se calhar aterraram no chão ou simplesmente se esborracharam contra a parede.
Remeteste-te ao silêncio. Pensas que é a melhor táctica e a melhor solução assim como um lago estagnado que reflecte céu e terra, mas um lago é feito de várias camadas, algumas de lôdo, e outras de cores escuras onde circulam seres estranhos.
Há alturas em que a teimosia em derrubar muros se transforma em obstinação. Atiro pedras ao lago e as águas turvam-se. Se me atiro à água para derrubar o silêncio, afogar-me-ei?
O silêncio devolveu-me um avião de papel, devolveu-me as minhas palavras em direcção à janela. Acho que vou ter de reaprender a voar...

silêncio

Publicado por jacky às 01:14 AM

agosto 03, 2005

silêncio.

O silêncio paira. Televisão apagada. Leitor de cds em stand-by. Telefone mudo. A solidão bateu à porta. Abri-lhe a porta. Não quis entrar, mas ficou na soleira da porta. À janela, alguns pensamentos esborracharam o rosto no vidro e contemplam o indigo do oceano. Do outro lado do vidro, espreitam perfumes acalorados, desejosos de silêncios frescos.
O silêncio pendurou-se no candeeiro para olhar de cima, as letras que saltam do teclado para o écran. Curioso, esse silêncio. Talvez fascinado com a dança das letras que se combinam e separam para serem ideias minhas e pensamentos teus. O silêncio nada pode contra a comunicação que se estabelece neste mundo virtual. Silêncio, reduzido a espectador.
A porta fechou-se. A solidão partiu. Sabe que não se pode instalar numa casa onde mora um coração recheado de amorizade. O silêncio já não está no candeeiro. Partiu com a solidão de mãos dadas. Foram procurar corações vazios. Não precisam de ir muito longe. No portátil, uma playlist para durar horas entre melancolias e batidas de Verão, sem lágrimas...

Publicado por jacky às 01:10 PM

julho 25, 2005

Tempo & Gaia

2 - Como chegamos a ser quem somos? (sobre o tempo e as transformações)

Era uma vez, o sr Tempo que andava a passear pela galáxia, quando foi de encontro à sra Gaia (Mãe Natureza) e ficou encantado. Era um ser ainda por descobrir, por cativar. Como o Tempo era paciente, demorou o que foi preciso para conquistar Gaia. O Tempo não era frouxo nem era agressivo, era apenas sábio: sabia que a vida se joga em momentos e em oportunidades que não se devem desperdiçar e lançou os laços. Gaia deixou-se envolver por essa força simultaneamente doce e viril, abandonou-se à própria feminilidade. Tempo e Gaia casaram.

O Tempo quis ser Primavera. Pediu ajuda às borboletas e às abelhas e mandou disseminar sementes e pólen por Gaia e da união entre o Tempo e Gaia, nasceram as flores e as árvores.

Depois, Gaia quis ser Verão. Pediu ajuda ao Sol e à Chuva e as flores tornaram-se fruto e as árvores sombra abençoada. A abundância espalhou-se na Terra.

Nem tudo o que abunda, permanece e chegou o Outono: quentura e maturidade para o Tempo e para a Gaia. As árvores doiraram e nasceram as castanhas e as abóboras. O ar arrefeceu e as flores começaram a adormecer.

Quando chegou o Inverno, pairou sobre Gaia, a Morte. O Tempo receou perder a sua amada. Fez então um acordo com a Morte: se ela deixasse Gaia viver, o Tempo prometia dividir-se em 4 Estações, partiria sempre no Outono e voltaria na Primavera. Os dias ficaram então mais curtos porque o Tempo já não permanecia no Planeta e Gaia deixava-se hibernar sob um manto branco à espera que o Tempo regressasse.

E assim durou o amor do Tempo e de Gaia, num constante renascer, entre união e separação e se calhar há-de durar para sempre, enquanto a Eternidade quiser...

Publicado por jacky às 08:29 PM

maio 26, 2005

em busca de...

Ela acordara melancólica. Nada de estranhar, portanto. Era uma pessoa popular. Tinha sempre a casa cheia de gente. Havia sempre alguém a exigir a sua atenção e, de preferência, de forma exclusiva. Nunca tinha tempo para estar parada. Falava, ouvia, sorria, dançava, cantava, ria, acarinhava, sensibilizava, influenciava, partilhava quase tudo de si.
Acordava sempre melancólica. Durante o dia, sentia-se feliz muitas vezes, leve como uma borboleta de flor em flor, doce como uma amora solarenga acabada de colher. Deitava-se a maioria das vezes como acordava. Não sabia bem porquê. Havia sempre um certo vazio por preencher, algo que faltava. Na verdade, andava à procura, mas não sabia bem de quê, talvez de alguém, talvez de um sonho por realizar. E por isso, acordava todos os dias melancolicamente à espera...

Publicado por jacky às 02:34 PM

maio 24, 2005

alucinação?

Chegaram ao mesmo tempo ao encontro de bloggers, vindos de lugares opostos. Cumprimentaram todos como alguns se despedem à francesa. Com o olhar, varreram os presentes até ficarem presos um ao outro, em olhar cruzado. Tudo se apagou à excepção de uma vaga sensação de reconhecimento.
Aproximaram-se para se verem melhor em todos os sentidos. Palavras flutuavam no ar, palavras de amor e encantamento. Uma música suave envolvia-os num abraço. Uma brisa primaveril trazia consigo um aroma de mar que os unia desde o princípio dos tempos. Os lábios permaneceram fechados, quando os olhos trocaram um longo beijo que os fez estremecer. Há assim momentos perfeitos: etéreos, certamente efémeros...
Chamaram-na. Virou-se para responder ao apelo. Mais amigos que chegavam e que exigiam a sua atenção. Olhou de novo. Não estava lá. Alucinação?
E assim continuou o dia com aquele grande vazio por preencher...

Publicado por jacky às 12:37 PM

maio 17, 2005

declaração de amor...

Levantou-se, de manhã com uma sensação estranha, ouvira nas notícias uma declaração de amor:

Amo-te desde o início dos tempos, andei por aí à deriva. Achei-te sem te encontrar e no momento em que, quase desistias de mim, não te quero perder. Esperarei por ti, amor...

Ligou a televisão e a mesma mensagem aparecia em todos os canais. Foi ao pc e tinha dezenas de emails intitulados declaração de amor. Todos os blogues, repetiam em coro a mesma litania! Não podia ser verdade! Estaria ele a declarar-se da forma mais insistemente pública?

O rádio despertador tocou de novo. O mundo continuava com os problemas de sempre, a televisão repetia os mesmos programas e apenas alguns emails de forward. Talvez fosse melhor assim, sempre preferiu declarações de amor privadas. Então, saiu para a rua e ficou à espera...*

* história inspirada numa prosa de Egito Gonçalves.

Publicado por jacky às 12:08 AM

maio 13, 2005

patinho feio


Cisnes reflectindo elefantes, Salvador Dali

Ela sempre se achara patinho feio. Era um sentimento generalizado de nunca ser suficientemente boa em coisa alguma: beleza, inteligência, sabedoria, sensualidade, competência, carisma, elegância e empatia.
Tentava passar despercebida a maior parte do tempo para que ninguém notasse as suas falhas. Costumava ficar em casa a estudar, a ler, a ouvir música. Evitava contactos físicos, não fossem descobrir o seu segredo.
Desde pequena, estava habituada a desenrascar-se, a apoiar os outros e a tomar sempre conta de tudo sozinha. Nunca tinha sido mimada. Sempre tinham evidenciado nela o pior com críticas e raramente o melhor com elogios.
Para ela, era inimaginável algum dia, descer a escadaria de um castelo, de vestido de noite cintilante, nem a falar num jantar perante centenas de pessoas importantes. Isso só acontecia em filmes, não na vida real, principalmente na sua própria vida...
Estava convencida que nunca interessaria o suficiente para que alguém a amasse toda uma vida e, talvez por isso, nunca se espantava quando era abandonada ou era rejeitada. Na verdade, certas convicções acabam por condicionar comportamentos e esse complexo de patinho feio estava sempre a atormentá-la...

Talvez um dia, ela entenda o seu verdadeiro valor, que os que parecem muito seguros de si, no fundo, são uns insignificantes patos que por aí andam, mas que acham que são uns verdadeiros cisnes. Talvez um dia ela acredite em si própria, só o futuro o dirá...

Publicado por jacky às 09:13 PM | Comentários (7)

maio 11, 2005

despedida


Roman Loranc

Ele era frio e desligado, pelo menos, era o que parecia. Dizia dele mesmo que não gostava de se prender. Todos os seus dias acordavam melancólicos e, assim permaneciam, mesmo quando o nevoeiro se dissipava.
Seguia o seu caminho, olhar no horizonte. Raramente, olhava para trás. Por vezes, arranjava companhia e ficava feliz, mesmo se nunca o demonstrava. Algumas pessoas persistiam em acompanhá-lo, puxando-o para outras direcções, adversas ao horizonte. Poucas pessoas, que gostavam dele como ele era, caminhavam ao seu lado, fazendo-o reparar nas flores perdidas do caminho.
Quando o cruzamento trazia a separação, partia bruscamente porque assim tinha de ser. Como poderia ele quebrar a continuidade com rupturas e interrupções? Afastamento era ferida. Certos nós que o ligavam a afectos não podiam ser desatados. A não despedida era apenas uma forma de nunca ter de esticar a corda e de não perder o nó...

Publicado por jacky às 12:08 PM

maio 08, 2005

medo I

O medo do falhanço amoroso é também o medo do sucesso amoroso
Luís Ene, em conversa de hoje do msn, que vai servir de mote para a feitura duma história...

Ele era um homem de sucesso, tinha sido talhado para grandes feitos. Não havia nada em que se metesse que não fosse o melhor. A fazer, tinha de ser sempre em grande. Estava habituado a ter tudo o que queria e desejava. Seduzia tudo e todos sem se prender realmente. Andava sempre em busca de algo que talvez nunca encontraria. Era uma espécie de insatisfação de viver, uma necessidade a preencher, um vazio a colmatar...

Um dia, teve um flash por ela, a desejada. Não era Afrodite. Pelo contrário, era brasa que aconchegava e que ele quis incendiar. Era porto de abrigo onde quis atracar o seu barco viajante. Era dócil sem ser submissa, doçura que desejava saborear. Tudo fez para ser querido pela mais desejada e, como sempre, conseguiu-o.

E depois? Depois, levantou âncora e levou o barco para o largo. Andou à deriva dias e dias, mas nunca muito longe do porto de abrigo, espreitando disfarçadamente. Talvez estivesse perto de algo, não sabia bem o quê. Outros barcos cirandavam ao largo expectantes. De vez em quando, respondia aos sinais luminosos enviados pelo farol do porto para se assegurar que eram para ele, mas não lá voltou porque era mais fácil não atracar. Corria o risco de gostar e querer ficar...

Publicado por jacky às 12:52 PM

maio 05, 2005

amizade III

Conheceram-se na Faculdade. Tinham algo em comum: ambas não eram o que pareciam. Ambas usavam o cabelo longo, roupas juvenis e românticas, mas eram tudo menos sossegadas... Tinham personalidades que encaixavam perfeitamente, uma era minuciosa e pormenorizada; a outra era holítica e criativa. Apoiavam-se nas aulas e nos trabalhos, na amizade e na vida.
Finalmente, foram para estágio: juntas como tinha de ser. Tiveram sorte, as orientadoras eram fantásticas e as turmas óptimas. O estágio era muito trabalhoso mas pelo menos, o ambiente era agradável. Havia um senão: uma das metodólogas. Era tão agressiva e destructiva nas suas críticas às aulas assistidas que conseguia pôr toda a gente de nervos em franja.
Cada uma das amigas reagia de forma diferente às críticas: uma ficava com aquele ar impávido e sereno que muitos só encontram na Gioconda. A outra entrava logo em ebulição e respondia torto à metodóloga, (mesmo apanhando com pontapés debaixo da mesa da amiga e da orientadora) como um vulcão.
Apesar de tudo, o esforço foi recompensado, tiveram boas prestações e excelentes notas: amizades com alunos que perduram e ficaram com dois apelidos que ainda hoje as faz rir: uma é Giocona e a outra Vulcona!

Publicado por jacky às 03:07 PM

maio 04, 2005

amizade II

Eram amigos desde o tempo de escola, desde que se lembravam de ser gente. Uma amizade entre um homem e uma mulher não é muito comum, mas existem muitas bem sucedidas.
Quando chegaram à adolescência, já não se viam tantas vezes porque seguiram áreas diferentes, todavia mantiveram sempre o contacto e a grande cumplicidade. Tinham ambos outros amigos e namorados e namoradas. Participavam em aventuras juntos ou em separado. Continuavam a contar tudo um ao outro, coisas que mulheres só contam entre si e homens entre eles.
Ele era então num jovem muito sedutor e ela, de patinho feio, passara a lindo cisne. Porém, nem tudo corria bem para ela. Os poucos namorados que gostara nunca tinham tido nem a experiência nem o carinho de lhe ensinar o prazer.
Ele soube disso num dia de íntimas confidências. Nesse dia, a amizade ficou ameaçada porque ele começou a fantasiar com ela e a desejá-la. Claro, ela, nem se dava conta, por isso, ele continuou a agir como sempre tinha agido, mas agora evitava estar com ela tanto tempo para não se descair.
Nos anos dum amigo comum, ela estava particularmente eufórica, nem parecia ela mesma. Ela que nunca bebia emborcou duas cervejas dum trago. Ria-se estupidamente a qualquer palavra, quase se despiu na pista da dança. Ele decidiu levá-la a casa. No carro, a cair de bêbeda, atirou-se fogosamente a ele. Como poderia ele resistir se a queria tanto em segredo? Levou-a para casa e finalmente deram asas ao desejo. Fizeram amor como nunca tinham feito antes, arrebatamento quase doloroso.
Quando as vagas do prazer ficaram em maré baixa. Ele, cheio de remorsos, levou-a a casa, desejando que o grau de alcolémia fosse alto e que no dia seguinte não se lembrasse de nada. Sabia que a amizade deles não resistiria a este acontecimento.
No dia seguinte, telefonou-lhe, a medo. Estava com uma grande ressaca, quase nem ouvia a sua voz. Doía-lhe imenso a cabeça e não se lembrava de absolutamente nada e que agora precisava de dormir um pouco. Desligou.
Ele ficou mais descansado: o alívio tinha deixado um certo sabor amargo. Melhor assim, as coisas haveriam de voltar ao normal.
Ela deitou-se na cama, ficou a olhar para as estrelinhas fosforescente que tinha colado no tecto. Pensou que, afinal, as aulas de arte dramática sempre tinham servido para alguma coisa. Ficaria à espera até que ele se decidisse um dia desses...

Publicado por jacky às 09:03 PM

abril 28, 2005

desejo VII*

Ele era como um catavento. Tinha os pés bem assentes no seu tecto, mas o que mais apreciava, era andar ao sabor dos ventos. Rodopiava sobre si mesmo, farejava todas as mudanças e partia em busca de renovadas aventuras.
Era um sedutor nato. Amava as mulheres. Nenhuma lhe era indiferente. Não que fosse promíscuo, contudo, não havia nenhuma mulher que o completasse. Em cada uma, encontrava algo a desejar: um olhar provocante, uma boca carnuda, uma cor de pele macia, um divertimento atrevido, umas unhas cuidadas, umas curvas apetitosas, um cabelo arranjado ou um cabelo selvagem, umas palavras amorosas. Coleccionava fotografias de todas elas: as reais e as inacessíveis, as encantadoras e as indiferentes, as musas e as tímidas.
Os cataventos não se prendem, giram sempre sem parar. Porém, há um dia, em que um vendaval há-de chegar, de repente, e atirar o catavento para a terra ou talvez não. Há cataventos que nunca se deixam desentectar...

* A fonte do desejo parou por aqui. Vou mudar de tema. Agora vou escrever histórias de amizade e desafio-te a fazer o mesmo, no teu blogue, ou aqui mesmo nos comentários, porque o desejo é gostoso, mas não há nada que substitua um verdadeiro amigo...

Publicado por jacky às 08:48 AM

desejo VI


Albena Hirstova

Desejou-a no mesmo momento em que a viu pela primeira vez e desejou-a tão intensamente que não concebeu partilhá-la com mais ninguém. O destino parecia ajudá-lo, quando ela correspondeu ao seu desejo.
Amavam-se desalmadamente como se o mundo fosse acabar ali. Estavam sempre juntos e davam tudo um pelo outro. Todavia, chega uma certa altura, em que a paixão tem de se renovar, senão esgota. Ele não quis. Fechou-a numa gaiola doirada. Vivia obsessivamente à sua volta. Levava-a para todo o lado. Vigiava-a o tempo todo. Telefonava-lhe a todo o momento, seguindo-lhe todos os passos. Controlava-a no cabeleireiro, nas compras, nas amizades, nos diálogos, nos laços familiares. Tinha banido do seu guarda-roupa tudo o que a pudesse tornar desejável a outros homens: transparências, decotes e roupas justas. Tudo fez para a possuir totalmente.
Ela começou a definhar, pássaro ferido encarcerado numa gaiola. Já não ria, já não cantava. Perdera o brilho de outrora. Entristeceu. Deixou de o desejar. Sentia-se ainda mais triste por isso. Como poderia ela se queixar, se era idolatrada? Deixou de ter vontade de tudo. Começou a engordar. Sombrou numa profunda melancolia.
Ele não entendia a mudança. Que estaria a fazer de errado? Porque estava ela uma sombra de si mesma? Continuava a desejá-la profundamente mas a sua indiferença feria-o.
Um dia, reparou noutra mulher e desejou-a naquele mesmo momento. A obsessão fora transferida. Abriu a gaiola e libertou o pássaro ferido, precisava dela aberta para outra mulher. O pássaro quis voar, mas não conseguiu: as asas já não lhe obedeciam. Voltou para o seu ninho e lá permaneceu, até cicatrizar algumas feridas. Voltou a rir e a cantar, mas baixinho. Nunca mais quis ser desejada, fosse ela voltar para uma gaiola...

Publicado por jacky às 06:55 AM

desejo V

Ele era tipicamente noctívago, não porque andasse de discoteca em discoteca, mas porque durante a noite, podia dedicar-se inteiramente aos seus pensamentos e aos seus sonhos sem ser interrompido.
Não era propriamente uma pessoa muito popular. Não era nem introvertido nem extrovertido. Apenas gostava de falar o menos possível. Quando estava com algum problema por resolver, gostava de se fechar na sua caverna. Às vezes, ficava lá tanto tempo que o seu silêncio chegava a ser malcriado, quase um insulto. Geralmente, as mulheres, ou o idolatravam e faziam tudo por tudo para agarrar a sua atenção, ou então desistiam perante tanto mutismo.
Gostava de se fechar no seu mundo paralelo para pensar nela, a mulher desejada. Era uma das poucas que o conseguia invadir pelas palavras, pela sua persistência, pela sua generosidade e pela sua inteligência viva. O mais engraçado de tudo é que a desejava, mas nunca a tinha visto. Tinham-se conhecido num chat numa noite em que ambos se sentiam particularmente sozinhos. Já a tinha visto em fotografia, porém, imaginava-a bem mais bonita. As fotografias fixam momentos e expressões que acabam por cristalizar e ela era tudo menos rigidez. A ser, teria de dançar num holograma em movimento.
Certas noites, em que a solidão o oprimia já não ía a chats. Aparecia no messenger à sua procura e teclavam. Se não estava, imaginava o encontro. Imaginava o seu cheiro, o som alegre do seu riso, o sabor da sua boca, o toque da sua pele. Imaginava o que lhe diria e o que ela responderia. Imaginava-a deitada num quarto de hotel, nua, desejosa dele. Imaginava tanto que chegava a adormecer, desejoso e desejado, e os sonhos continuavam pela noite dentro, envoltos em nevoeiros fantásticos, parados no tempo e em highspeed. Certas manhãs, acordava ainda envolto nela e até conseguia respirar o seu perfume.
Um dia, teriam mesmo de se encontrar. Um encontro? Talvez não. Tinha demasiado medo de perder o cheiro dela, quando o sonho se esfumasse em realidade...

Publicado por jacky às 12:20 AM

abril 26, 2005

desejo IV


Reinhard Simon

Estava deitada na cama a rever o seu velho álbum de fotografias. Ela era o que os franceses chamam de allumeuse, ou seja, uma incendiária de homens. À primeira vista, ninguém diria. Vestia clássico e só quando saía é que se produzia toda. Começava por depilar-se: depilava as pernas, depois as axilas, o buço e deixava sempre para o fim, os que ficavam junto ao sexo, que teimavam em sair da cueca tanga e ela odiava pilosidade. De seguida, ía para o banho, um longo banho com sais suavizantes. Depois secava-se num turco aquecido previamente e passava creme hidratante pelo corpo todo. Queria ter a pele bem macia para a noite que se avizinhava. Maquilhava-se, secava o longo cabelo negro e perfumava-se.
A roupa era escolhida a dedo. Não usava minisaias porque preferia ser discretamente sensual. Usava e abusava de vestidos negros decotados e saias travadas com rachas onde se distinguia ligeiramente meias de ligas pretas. Ela sabia que as ligas deixavam os homens loucos. Finalmente, os sapatos de tacão bem bicudos e altos, para poder dominá-los mais facilmente. Estava pronta. Só faltava o casaco, comprido, para resguardar-se na rua.

Entrou na discoteca que estava na moda naquele momento. Não havia porteiro que não a deixasse entrar depois de um longo e prometedor olhar. Deixava casaco e carteira no vestiário e ía para o centro da pista. Fechava os olhos e entregava-se à música em total abandono como se fosse um corpo de homem, o corpo de homem por que ansiava há muito. Sabia que mais tarde ou mais cedo, aquele corpo que tinha reparado ao longe haveria de se aproximar.
Aquela noite era especial. Era a nº 100. Gostava de números redondos porque lhe davam sorte. O corpo número cem já estava à sua frente. Não falaram, nem era preciso. Os corpos sabem quando se desejam e ela desejava-o. Saíram, disse-lhe o hotel para onde queria ir, um diferente cada noite.
Entraram. Despiram-se com sofreguidão e ele acariciou-a, beijou-a, tomou-a, gritou de prazer e tudo acabou como começou. Mais uma noite de fingimento. Logo que o seduziu, deixou de o desejar. Afinal, o número cem não tinha nada de extraordinário. Deixou que ele adormecesse, tirou-lhe uma fotografia com o seu telemóvel sofisticado. Levantou-se e vestiu-se. Saiu. Quando chegou a casa, imprimiu a fotografia. Deitada na cama, colou-a no seu velho álbum de fotografias, no lugar do nº 100.

Publicado por jacky às 04:53 PM

desejo III

Ele amava-a desde que se lembrava de ser gente. Tinha tudo começado na adolescência. Ele sempre fora tímido, mas muito estimado por todos, devido à sua permanente serenidade e inata sabedoria. Ela era a miúda mais popular do bairro. Todos os adolescentes da zona estavam apaixonados pela miúda-furacão. Tudo nela resplandecia, era a alegria de viver encarnada em gente. Ele, como todos os outros (e odiava-se por isso) desejava-a. Porém, sabia que não tinha hipóteses. Além de ser um pouco mais velho que ela (e nestas idades, 3 anos fazem muita diferença) era a sua antítese. Ele era melancólico, observador, calado, sonhador e passava o tempo perdido nos seus pensamentos. Ela era luminosa, colorida, faladora, divertida e muito comunicativa.
Começou a namorar com uma miúda muita gira para a esquecer e foram ambos a uma festa de anos de um vizinho. Apesar da sua introversão, havia uma coisa que ele gostava muito, que era de dançar. Dançou toda a festa. Ela estava lá. Ela, como sempre, animava a todos e ensinava passos de dança coreografados a que todos aderiam e ele também. Depois, foi a vez dele de ensinar e então ela olhou para ele, não como costumava, mas com olhos de ver. Foi aí que ela reparou nele.
Ele era loiro, de olhos castanhos meigos, tinha um sorriso lindo porque se ria com os olhos. Era gentil e carinhoso. A serenidade dele atraiu-a como se ela fosse um mero clip e ele um poderoso íman.
Não descansou enquanto não soube tudo dele, o que ele fazia, o que ele gostava, quem eram os amigos deles, o que fazia nos tempos livres até conhecê-lo em profundidade. Elaborou um plano: uma festa na sua casa. Entretanto, deu pulos de contente quando soube que ela já não namorava com a miúda gira e preparou tudo para que ele reparasse nela.
Ele ficou espantado: ela tinha-o convidado para uma festa na sua casa a ele? Devia ser por causa dos passos de dança. Bendita dança!
O dia da festa chegou e tudo correu sobre rodas, quando descobriram que ambos estavam apaixonados um pelo outro sem saberem. Amaram-se intensamente, como só os primeiros amores da adolescência sabem amar. Esse amor poderia ter sido eterno, se as contingências da vida não os tivessem separado. Demoraram anos a curarem-se um do outro. Namoraram inúmeras pessoas que procuravam ser à imagem e semelhança um do outro. Ela casou primeiro. Ele ficou à espera. Não podia acreditar que ela não tivesse esperado por ele. Só quando ele soube que tinha tido um filho, é que desistiu. Casou com aquela que o amava há muito e também teve o filho que sempre desejou ter da miúda-furacão.
Já não a vê há muito tempo, mas ainda a deseja. Ainda a sente nos passos de dança que dá cada vez menos. Ela foi o seu mais lindo sonho tornado realidade. Quando os dias se tornam demasiado tristes, sonha com ela e deseja voltar àquela festa em que ela reparou nele, no dia em que ele se tornou especial pelo objecto do seu desejo, ele, o escolhido no meio de todos os outros que a desejavam...

Publicado por jacky às 09:46 AM

abril 25, 2005

desejo II

Ela queria-o a ele (ou não), umas vezes sentia calor e outras frio, mas sempre, sempre um arrepio.
Na verdade, não sabia bem o que queria. Sempre lhe fora difícil relacionar-se com adultos perfeitos, porque ainda tinha alma de criança.
Uma criança não se projecta no passado nem no futuro, vive apenas o presente. Uma criança é naturalmente espontânea: ri quando está alegre, chora quando lhe dói, grita quando se irrita e fica doente quando se perturba. Uma criança ou gosta ou não gosta, não finge o que não sente. Uma criança, quando não gosta, não sorri nem beija e quando gosta, expressa-o quando assim o sente.
Também ela, quando estava apaixonada não fazia planos, queria apenas amar livremente. Queria que o seu afecto fosse aceite sem reservas mentais. O tempo em que tentara ser adulta e criar uma família, já tinha passado e não tinha corrido bem. Tinha tentado agir como esperavam dela, mas não tinha conseguido. Tinha prometido a si mesmo nunca mais construir castelos de príncipes e princesas, que viviam felizes para sempre, porque sempre era demasiado tempo para se viver...
Estava cansada daqueles joguinhos que os adultos adoravam: agora seduzo-te eu e depois calo-me uns dias para veres que não me tens. Depois, quando estiveres no ponto, cedes tu e vens ter comigo para me seduzires. Depois, escondes-te tu e assim brincamos ao esconde-esconde dos afectos.
Seria assim tão errado simplesmente amar? Amar agora e não deixar para amanhã? Querer estar ao lado dele, gostar de saber dele, ficar feliz quando ele a queria? Era assim tão complicado ele entender que não estava a construir nenhum conto de fadas, que não fazia futurologia, que não queria ser pressionada com coisas programadas? Que entrar no jogo dos adultos a desequilibrava?
Ela queria-o, sim, porque ele também tinha alma de criança, porque ele também vivia o momento, porque ele via o belo de todas as coisas, porque sempre encontrava o riso perdido de todas as coisas.
E ela não o queria, porque ele se transformava e começava a dissecar o que ela dizia e fazia, julgando que ela o estava a armadilhar num jogo de adultos.
Porque não podiam eles, encontrarem-se quando o tempo deixasse, olharem-se nos olhos e beijarem-se se assim o quisessem? Porque não podiam eles, enquanto não se vissem, gostarem(-se) simplesmente?
Ela queria-o a ele (ou não), umas vezes sentia calor e outras frio, mas sempre, sempre um arrepio.

Publicado por jacky às 07:02 PM

abril 24, 2005

desejo


Omniphoto

Desejo-a e há-de ser minha. Sempre tive tudo o que desejei. Nunca tive de me esforçar muito para conseguir o que quero, talvez por estratégias bem planeadas, talvez por sorte apenas.
Desejo-a e há-de ser minha. Ela tem algo de diferente das outras, não sei bem dizer o quê. Ela nem sequer é muito bonita, mas consegue surpreender-me, o que já não acontece há muito. Ela paira sobre o mundo, inalcançável, absorta nas suas paixões e fascínios, que eu gostaria de agarrar. Gostava prender a sua atenção, nem que seja por momentos. Sim, momentos, porque não sou homem de me prender.
Desejo-a e há-de ser minha. Agora que ela finalmente olhou para mim, desejo-a ainda mais. Ela entontece-me com o seu entusiasmo e assusta-me ao mesmo tempo. Quero-a e não a quero. Quero possui-la por momentos, mas não quero amá-la.
Desejo-a e há-de ser minha. Se fosse só uma questão de sexo, já teria acontecido. Sei como seduzir uma mulher. Nunca nenhuma me resistiu. Mas não é disso que se trata. Quero fazer ceder essa timidez corporal latente e levá-la ao êxtase total. Quero tocá-la bem no fundo e fazê-la totalmente minha. Quero invadir o seu jardim secreto e perfumar-me com as flores do seu desejo.
Desejo-a e há-de ser minha. Desejo transformar as suas palavras em gemidos de prazer, quero incendiar a sua pele com a minha língua no seu pescoço, no seu peito, na parte tenra das suas coxas. Não desejo só o seu corpo, desejo chegar ao mais íntimo nela, fazê-la vaguear pela imensidão do seu prazer, onde mais ninguém esteve antes. Quero fazê-la minha, fazê-la ceder as últimas barreiras, entrar nas últimas fronteiras proibidas. Não quero só um corpo em êxtase, quero-a toda, totalmente minha.
Desejo-a e não a desejo. Quero penetrar nela, ver o fogo do arrebatamento no seu olhar, fazê-la chorar de prazer, quero fundir-me nela, mas não a quero. Quero tudo, mas não estou disposto a dar tudo porque não sou homem de me prender. Certas noites, em que a desejo mais que posso, telefono-lhe, embalo-a com palavras sentidas e abandono-me à sua voz que, emocionada, me canta poemas de amor. Sinto o sangue a correr-me nas veias. O meu pénis endurece com a doçura da sua voz. Já não aguento mais. Desligo com a desculpa que já é tarde. Masturbo-me finalmente com a imagem dela nos olhos e a sua voz a acariciar-me. Por hoje, saciei o desejo.
Desejo-a e há de ser minha ou talvez não...

Publicado por jacky às 12:29 PM

dezembro 25, 2004

Espírito de Natal

Um certo dia, no mês de Dezembro, uma menina perdeu o espírito de Natal. Este tinha ido fazer uma viagem, juntamente com a sua alegria e felicidade. Ficou, portanto, só, triste e infeliz.
Nesse ano, não teve vontade de decorar a árvore de Natal, nem de comprar bolas novas, para a enfeitar. Não andou pelas ruas iluminadas, fazendo planos para quem iria distribuir as prendas, nem comprando coisas lindas para oferecer aos que lhe eram queridos. Não fez cartões de Boas Festas, nem lhe apeteceu enviar alguns já feitos. Pior ainda, não sentiu amor, tolerância, espírito de dádiva, paz, compaixão.
Sem espírito de Natal, sentia-se vazia e solitária.
Que fazer?
Resolveu esperar por ele. Será que iria demorar-se? Por onde andaria ele nesta altura? Ainda estaria a viajar com a sua alegria e felicidade? Por que teria ido embora?
Enquanto esperava, resolveu encher o seu vazio, construindo uma casa nova para o seu espírito de Natal. Edificou tudo num instante.
A casa de tijolo tinha paredes brancas, rasgadas por janelas enormes. A porta estava entreaberta para que o espírito de Natal, a sua alegria e felicidade entrassem, logo que chegassem. O telhado tinha uma chaminé catita, com uma abertura larga e escadinhas que davam entrada directa para a lareira. É que nunca se sabe... O espírito de Natal podia armar-se em Pai Natal, querer entrar pela chaminé e depois, se fosse demasiadamente estreita, ficaria lá entalado!
De fora, espreitava-se pela janela e viam-se cortinas salpicadas de flores e plantas que sorriam encantadas para um raio de sol, que as tinha ido visitar.
No hall, havia um móvel rústico, onde se penduravam os casacos e os chapéus e, em baixo, estavam guarda-chuvas. Só para o caso da chuva se atrever a molhar este quadro idílico...
À direita, entrava-se para a sala de estar. Como o nome indica, dava vontade de se estar lá. Os sofás confortáveis convidavam ao descanso e ao relaxamento. Da aparelhagem, saíam notas musicais que dançavam juntamente com sons da natureza.
A menina estava lá de olhos fechados. Aquela música fazia recordar-lhe a sua infância, momentos felizes que guardava na sua memória, como se fossem segredos só dela, fechados a sete chaves na escrivaninha da sua lembrança.
Esse compact-disc que tocava, tinha música calma onde se misturavam sons naturais, como o barulho do mar com os seus golfinhos, o vento nas árvores, o canto dos pássaros e, ainda, ralos e grilos.
Alguns desses acordes de mar, faziam-na pensar no seu primeiro namorado, quando, ao domingo à tarde, iam passear pela Foz de mãos dadas, exibindo o que eles julgavam ser as suas melhores roupas.
Perduram ainda hoje, a suavidade desses momentos, as palavras que se sentiam no silêncio.
O barulho dos ralos e dos grilos era-lhe particularmente agradável.
Transportavam-na imediatamente para as noites do verão de 79, em que fez campismo selvagem com os pais. De dia, andava com um grupo de pré-adolescentes que se tinham tornado amigos inseparáveis. De noite, quando o calor acariciava seus sentidos, davam longos passeios pelas ruas aprazíveis da Granja, bordadas de lindas casas. Colhiam-se flores pelo caminho, apreciava-se o aroma da noite e o som repetitivo e securizante dos ralos embalava-lhes os passos.
O barulho do vento nas árvores, fazia lembrar fins de semana no Gerês, piqueniques na Quinta da Conceição, e mais recentemente, tardes amenas no Parque da Cidade.
Quando o bebé receava o vento nas árvores, a menina, dizia-lhe com um ar entendido, que o vento era atrevido, que fazia cócegas às folhas e o barulho que se ouvia, eram as folhas a rir. Então, o bebé mais seguro de si, sorria, contemplava as folhas com outro olhar e ficava a gostar um pouco mais do vento.
Em frente, um corredor dava para quatro portas. A primeira, era a do escritório. Era o lugar onde a menina se queria inspirar para escrever um conto dedicado ao seu espírito de Natal. As paredes estavam cobertas de estantes e, estas, estavam a abarrotar de livros e de molduras com fotografias.
Em frente à janela, havia a escrivaninha de estilo romântico, onde a menina se sentava a escrever poesias ao seu espírito de Natal em papéis de carta coloridos e perfumados.
Às vezes, também lhe escrevia mensagens que mandava via internet. Sim, porque hoje em dia, até os contos de Natal e as suas personagens têm que se adaptar à modernidade e às suas novas tecnologias.
As outras portas davam para os quartos: um para o espírito de Natal, outro para a sua alegria e felicidade que bem podiam dormir juntas na mesma cama e o último era da menina.
O seu quarto era simples, mas acolhedor. Os móveis sóbrios, em madeira, davam um ar quente e a colcha de patchwork colorida tinha sido feita por ela. Cada quadrado representava um momento significativo da vida dela. Não eram só alegrias e felicidades. Também estavam lá costuradas as decepções, as tristezas e as solidões.
Quando acabou a decoração e sentiu que estava em casa, o milagre aconteceu. Já era Dezembro do ano seguinte.
Num canto da sala, a árvore de Natal estava enfeitada alegremente de fitas, bonecos, bolas e luzes. Numa mesinha, ao lado, o Menino Jesus estava deitado nas palhinhas, aquecido pelo ar quente da vaquinha, no seu lindo presépio.
Em cima da mesa da sala, os cartões estavam prontos para serem enviados. Da cozinha, vinha um cheirinho a doce: pão-de-ló, bolo-rei, aletria, frutos secos, arroz-doce, rabanadas e outras delícias que abriam a nossa imaginação...
As prendas estavam embrulhadas em papéis brilhantes, etiquetadas para os respectivos donos.
A prenda maior que lá estava, era uma caixa florida, com a tampa semi-aberta.
A menina movida pela curiosidade, foi espreitar...
Não ficou muito surpreendida quando, de lá, viu sair o seu espírito de Natal, juntamente com a sua alegria e felicidade, mais gordinhas.
Foi a menina que, à medida que ia preenchendo o seu vazio, puxava de volta o que lhe faltava. É que, apesar da tristeza e da solidão, nunca deixou de ter Esperança.
E a Esperança é o berço do espírito de Natal, da alegria e da felicidade...

Jacqueline Lima

Publicado por jacky às 11:54 AM