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julho 16, 2005

Os meus alunos III (reflexão)

Quando escrevi o post os meus alunos, recebi muitos elogios e não me senti muito à vontade. Infelizmente, nem tudo é rosa. Então decidi escrever os meus alunos II, para que soubessem qual o reverso da medalha. Porém, não queria que pensassem que ensinar é um pesadelo. Daí este último post sobre os meus alunos, para recolocar as coisas nos seus lugares.

Na verdade, nem tudo é preto nem tudo é branco. No Ensino, os dias estão matizados por todas as cores. Certos dias, alegres, com cores vivas; outros dias, tristes, bem cinzentos e ainda, muitos dias, harmoniosos, em tons pastel.

Quis escrever o óptimo e o péssimo para que compreendessem que ser-se professor em Portugal é certamente uma tarefa difícil e complicada, mas quando se gosta do que se faz, pode tornar-se óptimo e agradável.

Não posso dizer que sempre corre bem por culpa dos alunos, às vezes, também não estou com paciência ou dói-me a cabeça e não me apetece sequer aturá-los. Não pensem que só os alunos são indisciplinados, os métodos, as matérias e as escolas nem sempre são os melhores. Há professores... bem que podiam ficar em casa a plantar batatas na banheira. É o que se tem e não havendo condições, tento sempre dar o meu melhor.

A maior parte das vezes ando carregada de livros.
Como posso falar de arte se nunca viram nenhuma pintura? Então levo todos os livros que andei a coleccionar da Taschen para que possam ver.
Como posso falar que há sempre um poema que eles possam vir a gostar, se na escola não há livros? Então levo todos os meus livros de poesia.
Se quero falar de Homero, e das suas Ilíada e Odisseia, levo o portátil para que possam ver o filme Helena de Tróia.
Sei que sou das poucas que se dá ao trabalho de partilhar as próprias coisas com os alunos, mas para se poder ensinar a paixão por algo, é preciso mostrar-se a própria paixão que está cá dentro.

Todos os anos, dizem-me que não gostam de ler.
Todos os anos, dizem que não sabem nem gostam de escrever.
Todos os anos, pegam nos meus livros e folheiam-nos primeiro, depois lêem. Às vezes, até os levam para casa e devolvem-nos sempre.
Todos os anos, escrevem muitas folhas A4 de textos, sem darem por ela e ficam sempre a escrever um pouco melhor.

Sei que não lhes ensino muitos conteúdos.
Sei que não ficam mestres em gramática e que vão continuar a dar erros.
Mas pelo menos, todos os anos, consigo transmitir um pouco de paixão pela língua portuguesa, pelos seus autores, pela beleza das suas paisagens e pelas particularidades das suas gentes.
Acabo sempre por ficar contente com os resultados, por isso, não se preocupem comigo, dou bem conta do recado! Assunto encerrado...

Publicado por jacky às julho 16, 2005 02:01 PM